Ensaio12 de março de 20269 min

Por que o multiverso cansou — e por que ainda funciona

Durante uns anos, “multiverso” soou sofisticado. Qualquer fenda no céu prometia liberdade, encontro de elenco e uma saída elegante para décadas de continuidade. O público entrou no jogo. Depois passou a reconhecer o truque antes do segundo ato.

O cansaço não é contra a ideia. É contra a preguiça. Nas revistas, o universo paralelo servia para testar um “e se”, preservar o cânone ou devolver alguém sem apagar o luto de quem leu a morte. No cinema de escala, o mesmo recurso virou corredor. A trama aperta: porta. Falta novidade: um rosto conhecido. Precisa de um final bombástico: um exército de variantes.

O que isso resolve de verdade

Continuidade é arquivo e é afeto. Quem acompanha há quinze anos quer que a escolha doeu. Quem chegou ontem não quer dever de casa. O portal, em tese, atende os dois. Na prática, o recorte raro se sustenta sozinho. A maior parte das tramas assume que o prazer está em reconhecer — não em entender.

Tem uma diferença brutal entre variante-espelho e variante-pôster. A primeira pergunta o que o herói seria se tivesse falhado, envelhecido, escolhido a família. A segunda pergunta quantos uniformes cabem na arte.

Por que o recurso cansa

Cansaço de universo compartilhado e cansaço de portal se misturam, mas não são a mesma coisa. Um vem do dever de assistir a tudo para entender um gesto. O outro vem da sensação de que nada é irreversível. Se toda derrota se desfaz noutro ramo, o risco murcha. O personagem não morre: “migra”.

Há o desgaste visual também. Portal, cristal, corredor branco. O extraordinário vira papel de parede. Quando a gramática fica óbvia demais, some a emoção — e sobra o comentário que qualquer um já sabe fazer de olhos fechados.

E tem o efeito catálogo. Você assiste com a lista mental aberta: quem aparece, quem falta, qual versão é aquela. A lista compete com a cena. Um close de um rosto conhecido rende mais papo na saída do que um arco bem escrito. O mercado percebeu. A escrita, em vários casos, foi atrás do pior incentivo.

Quando ainda funciona

Funciona quando o encontro muda alguém. Dois uniformes no mesmo quadro não bastam. É preciso uma escolha mais cara depois do contato. Funciona quando o “outro você” é um espelho incômodo, não uma fantasia de poder. Funciona quando o salto tem preço — e o crédito final não estorna a perda.

Nas revistas, os melhores usos foram íntimos. Pai que encontra o filho que não teve. Heroína que vê a cidade que não salvou. Vilão que, noutro arranjo, seria o protagonista. Isso cabe em dez páginas e em duas horas. Não pede organograma.

Funciona também quando o tom admite a bagunça. Comédia e história que se declaram jogo sustentam o excesso. O drama que pede lágrima a cada despedida, não. O problema é o pacote que quer ser elegia e parque no mesmo fôlego.

E agora?

Ninguém precisa proibir o portal. É preciso devolver consequência. Uma cidade que o herói não abandona no meio do ato para “resolver o cânone”. Um vilão com motivo local. Um final em que se acredita, porque ninguém deixou a porta de serviço acesa.

Multiverso ainda é uma das ideias mais férteis da ficção popular. Só pede o que toda ideia boa pede: limite. Sem limite, é corredor. Com limite, volta a ser pergunta. E pergunta ainda prende mais do que cameo.

Continua no ensaio sobre o peso de recomeçar ou nas comparações de personagens.